terça-feira, 17 de abril de 2012

Semana do Metal - Almah


17/04/2012 08h00 - Atualizado em 17/04/2012 09h09

'Odeio o termo underground', diz cantor do Almah e do Angra

Vocalista do Angra, Edu Falaschi toca com o Almah no Metal Open Air.
Ele fala sobre suas declarações polêmicas de 2011 e o atual hiato do Angra.

Cauê Muraro Do G1, em São Paulo

 

A banda de heavy metal Almah, com Edu Falaschi ao centro, toca no festival Metal Open Air (Foto: Divulgação)

 

“A gente está vendo a morte do metal nacional – pra mim, morreu.” O diagnóstico desanimador foi dado em novembro passado por Edu Falaschi, o vocalista dos grupos de Angra e Almah, em entrevista a um site dedicado a esse segmento musical. Registrado em vídeo, o protesto gerou, naturalmente, controvérsia. Falaschi surge verborrágico e tenso: avança contra o que ele entendia como indiferença do público brasileiro, sempre disposto a conferir ao vivo os expoentes estrangeiros do estilo, mas em detrimento das formações nacionais.
(No sábado, 14, o G1 deu início a uma série de nove entrevistas com artistas que vão se apresentar na primeira edição do festival Metal Open Air, que acontece em São Luís, no Maranhão, entre os dias 20 e 22 de abril.)
O tom é consideravelmente distinto do que vemos num vídeo mais recente, divulgado na última semana. Neste, o cantor convoca fãs a comparecer no Metal Open Air, festival para o qual está escalado a tocar com o Almah, grupo que nasceu como projeto-solo, em 2006, e que no ano passado lançou o terceiro álbum. A exaltação do final de 2011 foi agora substituída por um relativo otimismo, na medida em que Falaschi crê que o evento nordestino irá “quebrar paradigmas e preconceitos”.
Em entrevista ao G1, por telefone, ele comenta o porquê da alteração de perspectiva. “Eu acredito que as coisas estão começando a mudar [no mercado]”, falou ele. “Eu tenho feito um tratamento de sete meses, para recuperar a voz. E esse tratamento, que tem também é um tratamento psicológico, me deu muito mais chão, tranquilidade.”
Após o Rock in Rio 2011, onde tocou com o Angra, Falaschi chegou a divulgar um comunicado sobre o tema. Dentre outras coisas, ele afirmou que seu trabalho no Angra – banda na qual ingressou em 2001, em substituição a Andre Matos – exigiu muito de suas capacidades, o que comprometeu sua voz. A necessidade do tratamento é decorrência também disso, esclarece o músico. A outra parcela, maior, tem a ver com questão psicológica, que também vem sendo trabalhada.
Nesta entrevista, o vocalista fala sobre esse problema e também sobre a repulsa que sente pelo termo “underground”, que usualmente se refere ao terreno habitado por bandas de menor expressão comercial. “Tenho orgulho de ter aprendido tudo que aprendi no underground. Mas tenho mais orgulho de ter conseguido sair”, observou ele. Leia, a seguir, trechos da conversa.
G1 – No vídeo em que você convoca os fãs a irem a São Luís, você parece mais tranquilo do que naquele de novembro do ano passado. Você agora fala estar “muito contente” com o Metal Open Air, que vai “quebrar paradigmas e preconceitos”. A que se deve esse otimismo?
Edu Falaschi –
Na verdade, essa é uma boa pergunta (risos)... Eu acredito que as coisas estão começando a mudar [no mercado]. Esse otimismo é devido a várias coisas. Aquele momento [em novembro] foi uma explosão mesmo, de várias coisas que tinham acontecido, tensão dentro da banda em que eu trabalho, o Angra, pós-Rock in Rio – eu estava muito abalado, nervoso mesmo, cabeça quente. Acabei falando algumas coisas que realmente penso, mas de uma forma agressiva. Também teve a frustração de ver alguns amigos sofrendo, o pouco público, os shows mais vazios...
E, hoje em dia, tenho esperança que isso mude, porque algumas coisas aconteceram nesse meio do caminho. Tenho falado com alguns políticos, com algumas pessoas importantes, para, por exemplo, trabalhar em cima de uma baixa de IPI [imposto sobre produtos industrializados], para baratear o custo de instrumentos musicais, instrumentos de áudio... Obviamente, isso facilitaria para as casas noturnas terem equipamentos melhores, e as bandas teriam mais condições técnicas. Com certeza, ajudaria a atrair o público para os shows.

G1 – Você também fala no vídeo que o festival pode ser “realmente o início de uma nova era no ano de 2012”. O que exatamente quis dizer com isso – “nova era”?
Falaschi –
Eu acho que esse festival vai abrir os olhos de muita gente importante, políticos, pessoas que podem ajudar no crescimento da indústria musical em geral. Aos olhos das pessoas mais leigas, as coisas podem começar a melhorar: mostrar que um festival desse tamanho está acontecendo até no
Nordeste, por exemplo. Nunca teve um festival desse nível e com tantas bandas brasileiras, é a primeira vez na história. Eu acho que a gente tem potencial para exportar as bandas. Não adianta ter Angra e Sepultura, tem que ter uma gama de bandas para puxar o movimento.
Quando eu fui para a Finlândia gravar o primeiro disco do Almah, em 2006, vi um programa lá que era igual ao da Hebe: uma velha loira, um negócio assim. E sabe quem tava tocando no programa? O Children of Bodom [banda de death metal daquele país]. Eu não botei uma fé, [era] um programa megapopular, só de “tiazona” e tal... Por que aqui não poderia ser [igual]? Claro que pode ser. É só uma questão de organização, de mostrar para todo mundo que o rock é profissionalizado.
Obviamente, não vou mudar nada sozinho, mas vou ficar em casa vendo todo mundo se F.? Vou pensar “sou famoso, sou do Angra” – e beleza, a cena continua assim?! Acho que o monopólio é ruim. Tem uma porrada de bandas que conheço que mereciam um crédito. Por isso falei do MOA [Metal Open Air], porque a banda vai poder se mostrar lá, para o público do Megadeth, 20 mil pessoas.
G1 – Você sente falta de ter reconhecimento no Brasil? Não falo dos fãs do estilo, mas do público em geral...
Falaschi –
Poderia ser maior com certeza. Para as pessoas enxergarem o heavy metal como potencial, como mais um mercado – apesar de a gente cantar em inglês. Canto em inglês por uma questão estética, o estilo soa melhor em inglês. Se fosse fazer por dinheiro, eu montaria uma dupla sertaneja. Eu sou metaleiro mesmo, de alma. As pessoas tiram o sarro, pode falar, não tem problema nenhum. Sou assim desde o começo da adolescência.
G1 – Como é essa história de você não gostar do termo “underground”?
Falaschi –
Eu não gosto mesmo. Porque algumas pessoas me criticaram, depois daquele vídeo [de 2011], querendo dizer que eu nunca fiz parte do underground, que eu era um "playboyzinho" que fiquei famoso depois que entrei no Angra, então acabei falando algumas besteira porque não manjo. E outra: as pessoas que falam isso não sabem da minha história. Eu tenho 20 anos de carreira, metade disso foi no underground, que essa é coisa que só tem boteco podre, com o som podre.
Eu fico P. porque é um termo que, se você traduzir, você está abaixo do nível da terra, do chão.  Quem fica embaixo da terra, pra mim, é morto, defunto. A gente tem que pensar grande, as bandas deveriam querer sair do underground. Eu tenho muito orgulho de ter aprendido tudo que aprendi no underground, mas eu tenho mais orgulho de ter saído dele e de hoje viver no mundo real. Esse negócio de ficar tocando num barzinho para cem pessoas ser legal – isso aí é papo furado. Se você oferecer um milhão para o cara sair dali, ele sai na hora. Metaleiro que tem esses papos às vezes: “Sou true, sou metal, tem ficar no underground, tem que ser raiz!”. Eu não posso ser raiz, vivendo bem, comendo bem, em bons restaurantes, sustentando a minha família – eu não posso ter isso?
G1 – Você acha que esse apego ao underground, essa falta de ambição, impede de tornar a coisa maior?
Falaschi –
Isso é coisa de quem não experimentou o outro lado. O rock tem um pouco desse radicalismo, e eu tenho lutado para quebrar isso aí. O cara nunca viveu o lado bom, muitas bandas não têm referência. O que elas conhecem é o quê? É o boteco podre, com equipamento lixo, iluminação ridícula... Mas se [essas bandas] tivessem a oportunidade de tocar em lugares bons... Devia mudar para todas as bandas entenderem o que é a vida real, o que é estar do nível do chão.
G1 – Uma das principais polêmicas do Lollapalooza foi o estado da voz do Dave Grohl, do Foo Fighters. Você passou pela mesma coisa no Rock in Rio 2011. Como avalia essa questão vocal?
Falaschi –
Eu tenho feito um tratamento de sete meses, para recuperar a voz, com uma equipe médica. E esse tratamento, que também é um tratamento psicológico, me deu muito mais chão, tranquilidade. O meu caso foi 70% do stress emocional – cansaço, frustrações, brigas –, isso foi “somatizado”. Nas minhas cordas vocais, não tenho nenhum problema. O stress causou refluxo, que é tipo uma gastrite, o ácido ficava queimando a minha corda vocal. Acho que, em todas as bandas, os músicos não entendem o vocal. Se estoura uma corda da guitarra do cara, ele vai lá e troca. Já cordas vocais, elas não [se] vendem na Theodoro [tradicional rua de São Paulo conhecida pelas lojas de instrumentos] (risos)...
G1 – Qual é o seu cargo atual: vocalista do Almah e ainda do Angra? Ultimamente, você tem sido mais referido como vocalista do Almah...
Falaschi –
O Angra, depois do Rock in Rio, parou – e decidiu ficar parado até 2013. Eu também tinha que fazer esse tratamento. Em 2013, a gente conversa, vai ver o que vai fazer, se vai fazer um DVD, vai gravar um disco, vai voltar, vai esperar mais...
G1 – Para os não iniciados, os grupos de metal podem parecer excessivamente parecidos uns com os outros. Seria tudo mais ou menos igual...
Falaschi –
Como, para mim, pagode é tudo igual. Axé é sempre aquela coisa de “Tira o pé do chão!”. E eles, dentro do mercado deles, falam que não [é tudo igual]. A gente vai sempre defender o nosso. Não sou contra os caras que gostam de samba, sertanejo – faz parte da cultura. Até porque tem coisas que são boas, principalmente as mais antigas. Só acho que devia ter espaço para todo mundo.
G1 – No caso do Almah, você se preocupa em oferecer algo que permita ao ouvinte distinguir a banda das demais?
Falaschi –
Na verdade, era um projeto solo, porque eu estava fazendo as coisas com o Angra. Quando o Angra degringolou, decidi tornar uma banda. No Almah, a gente mistura algumas linguagens, o heavy metal tradicional, como Iron Maiden, e o lado mais pesado, que é o thrash. Mas, ao mesmo tempo, temos melodias vocais e harmônicas, bem pop, com refrãos melodiosos pra caramba. Não gosto de usar o [termo] pop, mas tem aquele pop de verdade, Tears for Fears, Supertramp, esse tipo de influência. Então, [o Almah] acaba tendo umas harmonias de a galera decorar.

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