Por Gustavo Viana Prandini

Iniciamos aqui um espaço dedicado a tratar da nova música autoral produzida no Brasil e os rumos da produção cultural e artística na atualidade. Nossa missão é informar e conscientizar sobre a existência de um universo em contínua atividade, paralelo ao mercado musical mainstream, cada vez mais diverso, articulado e habilitado a desenvolver produções de alto nível, como é o mercado da música independente.

Mesmo com o crescimento da cena alternativa e hoje termos representantes do rock, rap e MPB que circulam no meio mainstream sem contrato com gravadoras, ainda existe um pensamento comum e que atinge uma parcela significativa do público ouvinte de música em nosso país, sobre uma suposta carência no atual cenário artístico brasileiro. De que faltam novos ícones, representantes de uma nova geração, ou de uma nova ideologia, com uma arte lapidada e suficientemente palatável aos ouvintes acostumados com a qualidade e tradição da música nacional.

Para muitos a música brasileira hoje pode ser resumida aos estilos que recebem maior parte dos investimentos da indústria fonográfica; sertanejo, funk, axé, os grandes da MPB e raras bandas sobreviventes do rock. O fato é que a maior parcela do público que não se identifica com as músicas que tocam nas rádios não está conectado com a nova produção da música nacional. E a tendência é que esta parcela, público em potencial da música alternativa, acabe recorrendo a consumir alguma novidade gringa. Ou pior, alimentar uma cultura conservadora adoradora de estrelas do passado e se privar de conhecer e apoiar artistas contemporâneos.

Atualmente o cenário independente é complexo e constituído por um ecossistema que vai do artista ao estúdio de gravação, fotógrafo, produtora de vídeo, assessoria de imprensa, festivais de música, designer gráfico; todas as etapas da produção artística exercidas com competência e alto nível técnico. E cada vez mais guarnecido de fontes de investimento por parte de empresas que vem direcionando seu marketing para o alternativo.

As primeiras gerações do independente brasileiro já partilham de boa parte da atenção da grande mídia e do circuito de shows do mainstream. Representantes do rap e MPB que conseguiram projetar seu nome e formar público suficiente para desenvolver um trabalho comercialmente rentável. O mais interessante é que se analisarmos os casos de sucesso, cada um desenvolveu uma trajetória, um caminho particular. Parece que o mercado independente é um universo de possibilidades, para aqueles com um trabalho artístico consistente e uma capacidade articuladora e empreendedora. O desafio é grande e parecido com o de uma marca; criar um nome, atingir determinado público, criar produtos, ampliar a efetividade das suas ações e buscar fontes de financiamento.

Temos hoje grandes festivais de música independente espalhados pelo país, que possuem papel importante na formação musical de jovens, e também exemplos de bandas da nova geração indie com uma base sólida e fiel de público que já circulam pelo Brasil e até mesmo no exterior. Mas ainda existe dificuldade de criar alternativas e formas de rentabilizar em um tempo em que a maior parte das pessoas não compram CDs, não vão a concertos e noites com música ao vivo. Nem tudo são flores e ainda há muito o que se construir.

Parece que o cerne dos problemas está na mudança de mentalidade e a conscientização do público consumidor de música hoje. O desafio é criar uma cultura de valorização do artista, que traga o jovem para as noites com bandas, que o faça pagar conscientemente R$20 para ver um artista local ao invés de “torrar” toda sua grana em um ingresso inflacionado de um festival abarrotado de atrações gringas. Trazer mais equilíbrio para esta balança na qual as novas bandas perdem de longe.

Ouvir que a “boa música” está em decadência ou que o rock morreu é corriqueiro. Mas a verdade é que a música está acontecendo bem ao pé dos ouvidos de quem diz. Bastaria dar uma chance para algum bar ou casa de show com noite autoral que provavelmente conheceria algum trabalho no mínimo sério. Afinal de contas, os grandes músicos do futuro estão fazendo seus primeiros shows agora, iniciando suas carreiras, lançando seus primeiros discos e infelizmente muita gente está perdendo.



*Por Freak Produtora & Estúdio